Publicada em 06 de dezembro de 2018 - 18:48

Na Paraíba, agricultor deixa de produzir milho e feijão para vender vento

Santa Luzia (PB), 6 dez (EFE).- Longe de um Brasil violento e inseguro, Luis Cardoso, o Piúga, recebe com sorrisos […]

agricultorSanta Luzia (PB), 6 dez (EFE).- Longe de um Brasil violento e inseguro, Luis Cardoso, o Piúga, recebe com sorrisos qualquer estranho que se aproxime de sua casa, que fica na cidade de Santa Luzia, na Paraíba, oferecendo sombra e água fresca no terraço.

Mas não foi a receptividade que fez o agricultor, de 73 anos, ficar conhecido na região. Piúga tornou-se famoso e atraiu curiosos por deixar de produzir algodão, milho e feijão para vender vento.

Os problemas enfrentados com as fortes secas que dificultam a produção agrícola deram lugar a uma oportunidade gerada pelos ventos fortes e constantes registrados no Nordeste, o que favorece o desenvolvimento de projetos eólicos. A “oferta” abundante do recurso atraiu a indústria e mudou a vida de agricultores como Piúga.

Há cerca de oito anos, Piúga conta que “estranhos” apareceram em sua casa e contaram a ele que queriam comprar vento.

A proposta era instalar três aerogeradores sobre as terras do agricultor, tornando a propriedade uma parte do complexo eólico de Santa Luiza, conduzido pela empresa espanhola Iberdrola, através da filial brasileira Neoenergia.

“Nunca tinha ouvido falar que podíamos vender o vento”, explicou Piúga, ainda incrédulo com a proposta que recebeu.

Para a construção do complexo eólico formado pelos três parques hoje em funcionamento na região, a Neoenergia aluga as terras de 23 famílias, e uma delas é a de Piúga.

Não só o agricultor ficou ressabiado com a proposta que recebeu da empresa. Quando contou à esposa que tinha recebido uma oferta para vender vento, ela recebeu a notícia com desconfiança.

“Minha mulher achava que perderíamos o pouco que tínhamos, mas eu já tinha dado minha palavra, não podia voltar atrás”, revelou o agricultor, que agora agradece por ter tomado a decisão.

“Ninguém queria essas terras”

Piúga é filho de agricultores, mas ficou órfão de pai e mãe aos 14 anos. Depois disso, ele se criou sozinho, junto com os 14 irmãos. A família tinha várias propriedades, que foram divididas entre os filhos. Cada um ficou com 50 hectares.

Foi assim que Piúga começou a trabalhar como agricultor e a plantar algodão, milho e feijão. No entanto, as fortes secas, especialmente as da década de 80, atrapalharam a produção agrícola, trazendo grandes dificuldades à família.

“Ninguém queria essas terras, não serviam para nada. Mas agora há vento, e eu alugo”, afirmou.

Para o agricultor, a ideia de vender vento era “impossível” de ser verdade. No entanto, com a renda que recebe agora com o aluguel de suas terras, Piúga consegue ajudar os filhos e netos.

“Antes isso era uma região seca, e ninguém queria um terreno aqui, mas desde que os moinhos chegaram, todo mundo está interessado. Foi por isso que deixei de trabalhar com algodão para vender vento”, explicou.

Ampliação

Em 2020, a Neoenergia iniciará uma ampliação da usina próxima ao terreno de Piúga para construir mais 15 parques eólicos. Desta forma, o local será o maior complexo do tipo da América Latina.

Segundo relatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (AbeEólica), 14% da energia produzida no Brasil é a partir dos ventos. No Nordeste, o índice chega a 70%, motivo pelo qual a região começa a atrair uma série de investimentos no setor.

Além disso, o Brasil vem escalando postos no ranking de países mais geram energia eólica no mundo. Atualmente, o país ocupa o oitavo lugar, segundo o Conselho Global de Energia Eólica (GWEC), com 7.000 aerogeradores em funcionamento e 569 parques eólicos, a maior parte deles no Nordeste.

UOL