Em dez anos 108 mil deixam trabalho infantil na Paraíba

Seis anos depois, a cena se repete: “Acordo 4h30 da manhã pra pegar no serviço de 5h00. Trabalho até às 11h00, almoço e volto de 1h00 até às 4h00 da tarde.

 Às vezes, também trabalho no sábado, até o meio-dia. À noite, vou pra escola”, revelou o adolescente paraibano Werberson Araújo Rocha, 14 anos, que cursa a 7ª série do ensino fundamental e trabalha nas lavouras de abacaxi, em Santa Rita, município da Região Metropolitana de João Pessoa.

 A dura jornada de trabalho do jovem, de até 50 horas semanais, é a mesma dos seus irmãos Joalison Pereira, 15 anos e Anderson Araújo, 16, que ainda fazem a 6ª série. Como eles, 70 mil crianças e adolescentes, de 5 a 17 anos, ainda trabalham na Paraíba, dos quais 38,5% exercendo atividades agrícolas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2009), divulgada, este ano, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de meninos e meninas no trabalho infantil chegava a 178 mil em 1999, o que mostra que 108 mil deixaram de desempenhar atividades precoces e perigosas.

 O Jornal publica a 2ª reportagem da série especial “Correio 10 anos: avanços e desafios da infância”, que abordará hoje o trabalho infanto-juvenil, problema que causa um atraso enorme no desenvolvimento e na vida escolar de milhares de crianças. O Jornal mostrará personagens revelados há até 10 anos e contará como vivem atualmente.

 Trabalho no abacaxi afasta crianças da escola na Paraíba
O sol já tinha ido embora quando a reportagem chegou à casa do agricultor João Luiz Mesquita, 65 anos, no Distrito de Odilândia, em Santa Rita, município onde se concentra grande parte das crianças e adolescentes que exerce atividades precoces e perigosas na Paraíba. Apesar de ter reduzido, o trabalho infantil continua afastando meninos e meninas da escola e também do sonho de mudar de vida. Há seis anos, o Correio mostrou um grupo de 14 adolescentes e jovens, de 13 a 25 anos, que trabalhava nas plantações de abacaxi, em Odilândia e estava perdendo as impressões digitais devido à atividade desgastante que exercia. Pelo menos cinco garotos eram filhos e netos de seu Luiz e trabalhavam por causa das necessidades financeiras.

 Seis anos depois, o Jornal voltou ao lugar e reencontrou alguns desses jovens, que continuam na mesma atividade e ainda sonham em entrar na universidade. Na casa de seu Luiz Mesquita, a reportagem foi recebida com um pouco de desconfiança. Mas após uma pequena conversa, o agricultor respondeu: “Eu estou lembrando da senhora”, sorriu. “Muita coisa mudou. Graças a Deus, consegui realizar meu sonho de me aposentar”, acrescentou, orgulhoso, o agricultor.

 Ele ainda mora na mesma casa, com parte dos filhos solteiros e a mulher, Rosa Pereira do Carmo, 58 anos. Na mesma rua, ainda sem calçamento e com pouca infraestrutura, também vivem pelo menos outros quatro filhos casados de seu Luiz Mesquita. O agricultor ensinou aos filhos a cultivar o abacaxi.

 Analfabeto, seu João Luiz também foi vítima do trabalho precoce e da baixa condição social. “Comecei a trabalhar com 12 anos e só fui na escola três vezes. Consegui criar meus nove filhos plantando abacaxi. Eles me ajudavam durante o dia e estudavam à noite. É melhor está na roça, do que ficar na rua pra virar marginal”, ressaltou. “Se o governo botasse os jovens pra trabalhar nas empresas, não morriam tantos deles na violência e nas drogas”, acrescentou dona Rosa, mulher do agricultor.

 Luciano Mesquita, 23 anos, um dos filhos de seu João Luiz, continua trabalhando na cultura do abacaxi. Ele concluiu o ensino fundamental, mas parou de estudar porque disse que não há escola de ensino médio perto da sua casa. “A escola fica longe daqui, a uns 18 quilômetros. Além disso, quando a prefeitura atrasa o pagamento do ônibus, os alunos perdem aula. Este ano, quase todo mundo daqui foi reprovado porque o ônibus não vinha e eles faltavam aula”, revelou o jovem, que carrega nas mãos marcas do trabalho pesado. “A gente já levou tanta furada nos dedos que, às vezes, nem sente mais. Ficam dormentes”, acrescentou.

Jornal CORREIO

 

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